04/03/09

Uma aventura com a polícia

Hoje foi um dia memorável, já que passei cerca de 5 horas na polícia, mais precisamente no departamento de investigação criminal apenas porque o meu carro (alugado) estava no local errado à hora errada.

A notícia está aqui:
Khallej Times
The National

Foi na passada 6a. feira (precisamente no meu dia de aniversário) que me desloquei a um shopping que fica a menos de 5 minutos de casa apenas para comprar uns petiscos para os amigos, neste dia de festa.

Tudo estava normal, não fosse o aparato no parque de estacionamento precisamente quando ia embora. Um cenário digno de CSI. Polícias de um calibre diferente dos normais com luvas a investigar uma área que estes mesmos delimitaram com fitas. Para entrar no carro tive de dizer a um deles que queria o meu carro que estava na área restricta. Foi-me pedida a chave e entregaram-me o carro. Fiquei sem saber bem o que se tinha passado, apenas ouvi rumores de que uma senhora teria sido assassinada e mais nada.

3 dias depois recebo uma chamada da polícia no meu número de telefone pessoal a confirmar se o carro com a matrícula X estava registado em meu nome, pediu-me o número de passaporte, a nacionalidade e o que fui eu fazer ao shopping no dia tal. Demorou 3 minutos a conversa.

No dia seguinte, novo número, novo agente policial e as mesmas perguntas. No final diz-me que talvez tivesse de ir à polícia assinar um depoimento como testemunha.

Um dia depois liga-me um outro agente policial, de um outro número a pedir-me para ir ao departamento de investigação criminal no dia seguinte para assinar o tal depoimento. Segundo ele "é só vir aqui, assinar e ir embora".

Chega então o dia lá fui. Após 1h a tentar encontrar o tal departamento na esquadra certa liguei para o agente (encarregue da investigação) que me foi dando as direcções. Assim que cheguei, deixou-me sentar confortavelmente num grande sofá de pele numa sala com 2 outros indivíduos: um senhor Egípcio com quarenta e poucos anos e um rapaz perto de 25 de África do Sul.

Engraçado foi quando o mesmo agente se dirigiu a nós e nos disse:
"Se tiverem de ir ao WC, peçam, não falem com ninguém lá dentro. Se alguém pedir o telemóvel avisem-nos de imediato quem for. Nós deixamo-vos ter os telemóveis porque sabemos que estão inocentes. Mas suspeitamos que o verdadeiro assassino esteja na sala ao lado."

A mensagem deixou-nos um pouco desconfortável pela realidade nua e crua mas, ao mesmo tempo, pude ver em primeira mão a discriminação e racismo pelas pessoas que se encontravam na sala do lado. Aí vi cerca de 30-40 homens naturais do Paquistão, Índia, Bangladesh, Sri Lanka e por aí fora, todos sentados no chão, ao monte, sem espaço digno de se mexerem sequer. Todos voltados para um guarda atrás de uma secretária. Simplesmente... sem palavras.

Na nossa sala, alguns guardas entravam e saíam como se procurassem algo/alguém. Não foi difícil de perceber que nós os 3 tinhamos algo em comum: visitantes de um centro comercial com o carro aparcado no sítio/hora errados uns dias atrás. Uma hora depois chegam mais 3 indivíduos, estes eram funcionários do centro comercial e tinham o carro no mesmo parque.

As primeiras 2 horas foi... esperar e esperar. Iam entrando, fazendo uma pergunta aqui e ali e saindo voltando alguns minutos mais tarde para o mesmo.

Eis que chega tiragem das impressões digitais, num sofisticado scanner de impressões digitais onde nem os lados das mãos, palmas, etc. escaparam ao scanner. Foram cerca de 10 minutos só para as impressões digitais, orientados por um árabe que devia perceber tudo menos como usar a máquina devidamente.

Segue-se a recolha do sangue. Uma agulha idêntica a um pionés (devidamente fechada e individual) espetou-se bem na ponta de um dos dedos e como se não bastasse... o simpático médico de serviço ainda a rodou para se certificar que o furo era suficiente. Ora... nada melhor do que isto, hein?

Chega a parte da foto, com um número de 6 ou 7 dígitos em árabe ao lado. Presumo que este seria o número do meu cadastro (tal e qual à filme). Ora como eu não sabia o que fazer... sorri um pouco, mas não em demasia.

Bem, depois de ter passado por toda esta fantástica experiência, chega a parte de falar com o "capitão-mor". Dos 20 minutos em que estive em frente a ele (vigiado por 2 árabes relaxadamente sentados em frente e atrás... não vá eu fugir, hã?) perguntou-me apenas o meu nome, a nacionalidade, onde morava (localização apenas, não morada exacta), e o que fazia eu naquele dia no centro comercial. Quando expliquei, começou a digitar a passo de caracol algo no computador durante uns bons 10 minutos. Esperei que digitasse tudo, e no fim diz-me para assinar. Tudo bem não é? Ele escreveu "apenas" o que eu disse, certo? Pois... como poderia eu saber se o documento que ele tinha acabado de imprimir estava em árabe? Perguntei-lhe com ar de brincadeira se não estava a mandar-me para a prisão. Ele riu e "leu na diagonal" o documento, de uma forma super natural como se o documento fosse um formulário para um concurso. Grande sorte a minha, que tal? Hesitei, olhei para o papel e fiz uma espécie de rabisco/assinatura, ao que ele me obrigou depois a marcar a assinatura com a minha impressão digital. Bonito!

Cheguei lá abaixo à sala inicial e comentei o sucedido com o Sul Africano que tinha já passado pelo mesmo. Ele estava apavorado. E se eu assinei algo que eles escreveram mas eu não disse? A ideia também me passara pela cabeça, mas... e agora? Contratava um advogado árabe para me traduzir o documento?

"Em Roma ser Romano." Então... "Em país árabe... deixa-te ir pela corrente" foi o que eu pensei.

(6 meses depois disso, agora, nunca mais me contactaram. Assumo que ficaram satisfeitos com os meus resultados falhados de criminoso. Já estou com a consciência tranquila!)